domingo, 25 de novembro de 2018

10 PEQUENINOS POEMAS DE AMOR de RAFAEL BRITO

Poeta é a eternidade de tudo. (Rafael Brito)


I

E nós,
Que nem 
Sabíamos direito
Sobre o amor,
Inventamos algo
E chamamos 
De amor,
Somente para
Tentar sentir
Um gosto
Diferente
Quando olhássemos
Um para o outro.


II

Do céu imenso
De cetim vidrado
Fiz a poesia
Dos teus olhos 
E os alpendres
Dos diversos cantos 
Fizeram um mundo
De querer infindo
E um pôr do sol
Muito mais que lindo 
Em ti.


III

Eu sou a pura arte 
que transborda da taça
de ouro 
das imensidões dos mundos.

Cálice de dor e arco-íris
envolto a nuvens 
de verão.

Aurora que nasce 
do chão
e cresce pros lados
(de dentro).

Eu sou o artista
que chora ao ouvir
os horizontes 
se formando no
fio daquela manhã 
que não passou 
em minha mente.

Minha alma
facilmente se perde
e se afoga entre tristezas
e solidões.

E de coração apertado 
vagueio sem rumo
pelas veredas dos sentimentos
perdidos.

a vida não é vã
só eu que sou.


IV

Tenho me dito,
Tenho me dado,
Tenho me feito,
Tenho me interrogado,
Tenho me saído,
Tenho me tirado,
Tenho me lido,
Tenho me voado,
Tenho me sentido,
Tenho me encantado,
Tenho me ruído,
Tenho me escrito,
Tenho me revirado,
Tudo pra ti, 
Por mim,
E em nós!


V

Foi naquele mar azul
Que tanto olha pra mim
Onde tudo começou
E onde tudo teve um fim

Na areia dessa praia
Sob o brilho do luar
Fizemos da noite bela
Um colchão de se amar

Olhando para aquele mar
Para aquelas ondas azuis
Vi no fundo dos teus olhos
Esses versos que compus

Que mesmo escritos errados
Sinceros não deixam de ser
Vivendo de ti em teus olhos
Até nunca mais morrer


VI

Meus versos são poucos
Pra que sejam 
Um presente.
Cabem em uma
Caixa de fósforos
De tão pequenos
Que são.

O que tornam 
Minhas poesias grandes 
É o brilho
Dos olhos teus!

É o sorriso 
Dos teus lábios,

É o amor 
Que tu me dá,

É o teu jeito 
De me ver,

É o teu brilho
De luar...


VII

Quando fecho os olhos do corpo, 
Abro os olhos da alma
E te vejo

Sinto o toque dos versos que vagueiam 
Sobre a pele da gente e floreiam
em desejo


VIII

Passagem das nuvens
Dos sonhos,
Surpresa da noite
Estrelada,
Suspenso em um fio
De alegria,
Os olhos brilhantes
Da amada.

Nos raios da lua
Firmada,
No verso da estrela 
Sentida,
Me encolho em teus
Olhos amada,
E faço de ti
Minha vida.

Teus cachos são
Rosa dos ventos,
Teu belo sorriso 
Me fala,
Que quando tu chegas, 
Menina,
Até a poesia 
Se cala.


IX

Ontem sonhei com você,
Você estava tão linda!
Mas quando o sonho vê o dia
- Se finda.

No sonho eu vi o seu sorriso
Ganhei o abraço que esperava,
Eu só queria estar contigo
-Mais nada.

No sonho você tinha asas
Tinha um brilho no falar
Falava do que sentia 
–E de amar.

Eu te escutava sorrindo
E você também sorria
E então chega destruindo o sonho,
-O dia!


X

Esse sorriso
De sol 
Que tu tens
É o que me 
Leva
Poesia 
A alma.

E assim,
Ao teu lado,
Meu coração
Amanhece
Todo dia. 


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sexta-feira, 27 de abril de 2018

UM POEMA À CONDADO - PB

CONDADO, TERRA QUERIDA




Condado, me recebestes
Como quem um filho abraça
Os meus sonhos recolhestes
E aos meus olhos se passa
O teu imenso carinho
A tua gente é um ninho
De amor e de cuidados
Querida cidade bela
Estás pintada na tela
Dos meus poemas bordados.

Como poeta do povo
Fui recebido em teu seio
E me senti Condadense
Enquanto estive em teu meio
Declamei, cantei, sorri,
Muitas coisas aprendi
Em tuas ruas pequenas
Me enchi de poesia
Com essa tua alegria
Das tuas faces serenas.

Visitei tuas belas águas
Que simbolizam esperança
E lembrei dos tempos áureos
Da minha pequena infância
Tu és tão bela e tão viva
E mesmo que eu conviva
Com outros povos da terra
Jamais te esquecerei
Pois meu coração deixei
E meu amor nunca encerra.

A poesia que faço
Não dá nem para descrever
O quanto te amo, cidade
Nisso você pode crer
O teu povo me saúda
E o meu trabalho estuda
Procurando me agradar
E agrada, certamente
E agora descontente
Preciso me retirar.

As obrigações não deixam
Que eu fique mais contigo
Deus sabe o quanto eu queria
Que tu fosse meu abrigo
Por muitos e muitos anos
Mas mesmo que faça planos
Para dormir em teu leito
No Ceará, Fortaleza,
Com sua imensa beleza
É meu recanto perfeito.

Do Ceará eu não saio
Para morar noutro canto
Mas podes ter a certeza
Que tens meu eterno encanto
De poeta bordador
Pois é grande meu amor
Por ti, cidade querida,
Os olhos de tua gente
Estarão sempre presente
Nas curvas da minha vida.

Te recolho em meus sentidos
E meu olhos te afagam
Meus sentimentos sinceros
Com valores não se pagam
Pois és um grande tesouro
Tu vale mais do que ouro
Nessa minha caminhada
Terra acolhedora e bela
És incrível sentinela
Da Paraiba amada.

Obrigado, eu agradeço
De todo o meu coração
Pelos dias que me destes
De grandiosa emoção
O poeta, em seu canto
De saudades chora um pranto
Em nome de seu amor
Brevemente eu voltarei
E em ti o que deixei
Voltará ao seu calor.

Poeta só é poeta
Quando tem inspiração
Guardo toda palavra
Cada gesto, cada mão
Cada abraço apertado
Cada olhar admirado 
Que teu povo me ofertou
Te amo bela cidade
A tua felicidade
Para sempre me habitou.

quarta-feira, 14 de março de 2018

VIDA LONGA AO MESTRE

VIVA A POESIA!

Hoje o Jornal Sertão Folhetim lança uma página especial em homenagem ao Mestre Chico Pedrosa pelos seus 83 anos, no dia da poesia! VIVA AO MESTRE!


segunda-feira, 12 de março de 2018

I FEIRA DA LITERATURA CEARENSE

UM MOMENTO DE GRANDES ENCONTROS


Estive no último sábado (10), no Centro Cultural Banco do Nordeste no Centro de Fortaleza, participando da I Feira da Literatura Cearense, evento promovido pela Casa da Prosa em parceria com o BNB. Meu recital estava previsto para 17h ao lado do grande poeta Klévisson Viana.

Cheguei bem cedo afim de aproveitar melhor os encontros poéticos literários que esses momentos promovem. Além dos poetas que estou acostumado a sempre encontrar nos eventos de literatura popular, encontrei também outros que não via a muito tempo e outros que passei a rever de pouco tempo para cá, um dessas impolutas figuras é o poeta Alan Mendonça, que havia encontrado a algumas semanas na V Jornada Literária de Limoeiro do Norte, onde tive a oportunidade de ganhar, das mãos do próprio Alan, dois Cds com composições suas executadas por vários artistas. 


Alan Mendonça é natural de Russas, Ceará, e é poeta, escritor, produtor cultural e editor/proprietário da Editora Radiadora, que lança poetas do nosso estado.

Aproveitei a oportunidade para perguntar a Alan, por que ele achava importante termos feiras literárias em nossa cidade e o que essas feiras traziam, como sempre, o poeta foi bem objetivo:

"Um evento desses gera encontros, encontros geram diálogos, e esses diálogos geram ideias, e aí se dá um respiro, né? na beleza que há; você sente esse respiro, essa esperança, na beleza que há na literatura nossa, e disso assim, dá vontade de fazer, de continuar nessa peleja que é tentar construir um lugar, uma cidade, um estado mais possível para a nossa arte, para as nossas tentativas de diálogos entre autores e leitores, e ai a comunicação, esse diálogo, essa possibilidade é o que mais impulsiona os artistas a criarem". afirma Alan.

 Sem sombra de dúvidas, o clímax desses eventos são os encontros e reencontros entre escritores, poetas entre si e o público.


Também tive a oportunidade de conversar outros grandes nomes da nossa literatura e produção cultural do nosso estado. Kelsen Bravos é um desses sujeitos de riso fácil e abraços cheio de admiração e palavras doces. Estive com Kelsen em vários eventos, mas me marca a sua presença em minha estreia no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em 2015, onde apresentei ao público, pela primeira vez, o personagem que me deu nome no meio literário popular: O Bordador de Histórias. Kelsen também falou da importância das feiras literárias na nossa cidade:

"A importância de uma feira como a I Feira da Literatura Cearense, para a nossa cidade e pra sociedade em geral... É que ela congrega em torno de uma manifestação cultural super importante, que é a literatura, crianças, adolescentes, pais, professores... Não é só a leitura, mas as cantorias, os saraus lítero-musicais, a oficinas, os encontros, os bate papos, numa convivência pacífica, as pessoas vem pra cá para se harmonizarem, é uma congregação, para se conhecerem em nome da paz... Eu passei três dias aqui respirando arte! Tudo aqui atrai e nos arrepia por que nos sensibiliza e nos inspira, por isso manifestações como essa, eventos como esse, são tão importantes e merecem ser multiplicados todas as semanas, todos os dias, na cidade, principalmente nas periferias, por que é lá onde as pessoas moram, é lá onde as pessoas estão, é isso", diz Kelsen.


Kelsen Bravos é professor, escritor, editor e produtor cultural residente em Fortaleza e sempre está presente como ouvinte, expositor e curador de eventos literários de grande importância para a nossa cidade.

Por último, pedi que Gilberto Rodrigues, que também já encontrei em vários eventos como Mestre de Cerimônias, falasse um pouco sobre o evento e sobre a importância do mesmo para o público Fortalezense: 

"A importância primordial de uma feira como essa é a possibilidade de contato com nossos escritores cearenses, com nossos cordelistas, repentistas. Nós tivemos aqui, além de escritores locais que residem ainda em Fortaleza ou no estado do Ceará, possibilidade também de trazer grandes escritores e fora do estado do Ceará mas que nasceram aqui no Ceará ou que tem uma relação muito próxima com o Ceará. Também possibilita esse intercâmbio de quem já conseguiu sair do estado do Ceará e de alguma forma venceu lá fora, e trazer também essa interação com os que estão aqui e querem um dia chegar a esse patamar de literatura, então, a grande importância da I Feira da Literatura Cearense é isso, esse intercâmbio", afirma Gilberto.


Gilberto é Mestre de Cerimônias e Apresentador da I Feira da Literatura Cearense e sempre está presente nos maiores eventos do nosso estado, colocando o seu nome em destaque entre o ramo cerimonial.

Contudo, a conclusão que temos é que a grande importância nesse eventos e em outros desse porte, são os encontros, reencontros e trocas de experiências entre escritores, poetas e público, que tem a oportunidade de estar perto de grandes nomes da literatura cearense e nacional. Os abraços e apertos de mãos, o contato físico entre seres humanos, a harmonia entre os seres. Eu me sinto extremamente feliz por estar em meio a tantas pessoas de luz e me sinto cada vez mais inspirado a registrar esses momentos que muitas vezes, são indescritíveis. 

Um abraço a todos,

Rafael Brito, O Bordador de Histórias.

Fortaleza, 12 de Março de 2018. 

1º EDIÇÃO DO JORNAL SERTÃO FOLHETIM






*Toda a edição e diagramação do jornal Sertão Folhetim é feita por Rafael Brito. Essa é uma edição semanal, que será publicada toda segunda-feira com matérias e poemas de vários autores de literatura popular.

quinta-feira, 8 de março de 2018

O PRIMEIRO LIVRO

APRESENTAÇÃO 

DO PRIMEIRO LIVRO DE RAFAEL BRITO

XILOGRAVURA DE STÊNIO DINIZ

Eu não tive a sorte e o prazer de nascer no sertão. Ouço dos meus amigos poetas, (os que contemplaram grandes coisas simples sertão a dentro), as fascinantes experiências de tempos de menino pelos lugares onde nasceram. Fico sempre maravilhado ouvindo, e imaginando, como um cinema em minha mente, tudo o que dizem. Queria eu poder contar também essas coisas fascinantes. Não tenho propriedade para isso, a não ser a que foi adquirida ouvindo cada um dos que ouvi. 
Porém, apesar de não ter nascido no sertão, fui escolhido, talvez por força do destino ou por nosso Pai Maior, para propagar essas histórias eternizadas na memória do nosso povo. O certo é que sei que nasci para isso. É minha sina.
Tive sim minhas experiências no sertão, e até hoje tenho, mas nunca quando criança que, como diz Arievaldo Vianna na apresentação de seu livro “O Baú da Gaiatice”: É no berço que formulamos as nossas descobertas mais geniais.
Apesar de não ter tido esse contato que outros poetas tiveram com o sertão, (e isso os tornam autênticos naquilo que fazem), tive a sorte de nascer em meio a muita informação de fácil acesso. Isso salvou o que eu sou. Tive também o grande privilégio de ter dois poetas em minha familia: Meu avô Joacir (avô que criou meu pai e meus tios, casado com minha avó depois que ela deixou o marido no interior e veio tentar a vida em Fortaleza) e meu avô Souza Brito (ao qual dedicarei um capítulo inteiro nesse livro).
Como podem perceber, leitores, nasci com muitos privilégios: menino de cidade grande, bairro pobre e mente inquieta, nunca senti na pele nenhuma das dificuldades que os meus amigos poetas sentiram e contam hoje como medalhas. Porém, tive sim minhas dificuldades, algumas, pensei que não suportaria, mas resolvi ter calma, pois ainda sou bem jovem e tenho muitas coisas para descobrir nesse mundo.
Minha grande descoberta na vida foi a palavra. Contar e escutar histórias foi minha grande descoberta. Escutar principalmente. Eu sempre fui muito apaixonado pelas festas populares: Maracatu, Bumba-Meu-Boi, Reisado, Cavalo-Marinho, Congadas, Quadrilhas, enfim, tive o privilégio de crescer rodeado de algumas dessas festas e aprendi a ver a beleza real de todo esse colorido cultural.
O “ouvir” é realmente a melhor forma de se aprender, depois do “observar”. Pelo menos comigo foi dessa forma. Sempre me senti um senhorzinho sentado em uma cadeira de balanço num alpendre de fazenda. Alguns amigos dizem, principalmente Ronaldo Lopes (pois foi o primeiro a me dizer isso), que sou um jovem que nasceu com a alma velha. Gosto de coisas que não são do “meu tempo” e aprecio as coisas com outros olhos, como se já as conhecesse, em particular, as coisas do sertão.
A palavra me cercou desde cedo e eu só entendi vários anos depois a mensagem que ela havia mandado durante a minha vida. Lembro-me de um senhor que morava na outra rua de minha casa que vendia plantas em um carrinho de ferro, todas as manhãs passava pela rua cantando motes, estilos de cantorias e canções. Eu gostava muito de ouvir ele cantando, as vezes cantava “Voa Sabiá”, outras vezes alguns trechos do que eu iria conhecer depois como “A peleja de Cego Aderaldo e Zé Pretinho do Tucum”.
Esse nome “Cego Aderaldo”, sempre esteve presente em minha infância, (lembrança tão distante que nem sei onde e nem quando ouvi pela primeira vez), talvez já tivesse vindo em meu subconsciente, encravado como uma ferramente para a missão que tinha que cumprir.
Ouvir seu Lourival cantando aquelas coisas, me davam um ar de alegria e euforia, parecia que eu conhecia tudo o que ele estava dizendo. Foi um dos meus primeiros contatos com a cultura popular.
Morador de bairro pobre, tive minhas vantagens: primeiro, nasci na rua de uma feira (que é o típico lugar onde os cordelistas vendiam seus folhetos e declamavam para o povo a desejo de apurar algum vintém). Segundo, moro perto de uma Ong que oferece aulas de arte dos mais diversos seguimentos. Esse foi o meu escape desde cedo. 
O projeto Criança Feliz é o que chamo de “Casinha dos Sonhos”, foi onde sai do “andajar” e comecei a dar meus primeiros passos por mim mesmo. É notável a imensa influência do projeto na minha formação artística cultural. Lá aprendi artes plásticas, violino, violão, canto, flauta, poesia, e me vali de uma biblioteca com um grandioso e valioso acervo. Li de tudo um pouco.
Muitos foram os responsáveis pelas minhas viagens imaginárias no mundo dos livros e da literatura, e sou grato a cada um. Todos sempre se disponibilizaram a ajudar-me em tudo o que precisei, parece que previam o caminho que eu iria seguir. Não citarei nomes por medo de esquecer de alguém e acabar trazendo um sentimento de ingratidão com os que não citei, mas tenho por certo que cada um sabe o quão importante foi e é para a minha caminhada.
Dados os primeiros passos e agradecimentos, explico o porque desse livro em dois pontos, primeiro: Porque sempre quis escrever algo sobre o que fui e o que sou, e sendo jovem, negro e de comunidade humilde, creio que isso tenha grande importância influenciativa para outros jovens como eu. Segundo: Porque tenho muito dentro de mim que precisa ser externado para que viva também nos corações de outros. Isso para mim é sempre um prazer. Essas coisas das que falo que guardo dentro de mim, são coisas simples mas de grande valor sentimental e força poética. São coisas da vida de um menino de alma velha. 
Vale também explicar o porque sou conhecido como “O Bordador de Histórias”, e explicarei: Bordar é uma arte muito bonita, onde, com linhas coloridas e agulha, se faz de um pano branco (ou de outra cor), uma linda toalha com desenhos feitos com paciência e amor. É isso o que faço, escuto as histórias, guardo-as comigo, e bordo-as em minha cabeça. Enfeito-as com linhas coloridas, e agulha e dou cara nova a cada uma delas, contando depois de bordadas e repassando o conhecimento que me fora transmitido.
Dado as apresentações formalmente, vamos então as coisas que consegui juntar de minha mente, algumas ouvi, algumas criei a partir do que ouvi, o certo é que, a tradição oral é o boi que empurra essa manjarra. Boa leitura à todos!

Atenciosamente,
Rafael Brito, O Bordador de Histórias.


Obs.: Também será lançado um CD com o título "Percursos Poéticos" com a mesma gravura de capa do livro, brevemente.

sábado, 3 de março de 2018

A PIMENTINHA DO FORRÓ

UMA INCRÍVEL VISITA


      No último dia 03 (Março de 2018), tirei um tempo para cumprir uma promessa: visitar minha amiga Cecília do Acordeon. 10 anos apenas e uma alma de gente grande. Artista Nata!

    Conheci Cecília na II Feira do Cordel Brasileiro, onde ela fez sua primeira participação no evento. Eu, já veterano, recebi com muito prazer a presença dessa pequena grandiosa artista, e fui muito feliz nesse encontro.

     Desde então, fiquei devendo essa visita, sempre marcava mas os imprevistos não me deixavam cumprir a promessa. Mas dessa vez, de supetão, fui. Percorri 68 km e aproveitei cada momento da viagem. A paisagem, agora verde, mostrava que as chuvas haviam visitado constantemente aquelas bandas durante os últimos dias, e o ônibus, beirando a serra, percorria alegremente como quem caminha com uma canção doce na boca.

    Desci em Antônio Diogo, Distrito de Redenção e fui de moto táxi até a casa de Cecília, casa simples e acolhedora, tipicamente nordestina. Neidinha, mãe de Cecília, me recebeu com um sorriso e com uma alegria que me deu gosto. Me senti em casa. Cecília logo veio ao meu encontro e me abraçou, e em seus olhos se via a alegria e a emoção de me receber em sua casa e finalmente cumprir minha promessa.

     Cecília não se fez de rogada, pegou logo a sanfona que ganhara outro dia em um programa de TV e logo começamos a tirar um som. Tirei o pandeiro da bolsa e o violão da capa, transmitimos ao vivo via internet e nos divertimos muito. 

    A pequena me contou então como conheceu o instrumento que tão bem manuseia, e descobri algo em comum: relatou que seu primeiro contato com a sanfona foi no reisado, que seu avô participa, eis o que descobri em comum, meus tios também fazem reisado e foi uma das primeiras manifestações culturais de raiz que vi na vida. De certa forma, eu e Cecília, viemos das mesmas coisas encantadoras: a cultura popular!

    Foi boa a manhã, e foi boa a conversa e a convivência, mesmo sendo pouco tempo. Soubemos aproveitar cada minuto. Almoçamos juntos e logo ela foi se arrumar pra ir a escola. Me deu de presente seu CD novo, um copo e uma régua com sua logomarca, e eu fiquei muito feliz com o carinho e a atenção. 

     Senti ter que ir embora tão cedo mas deixei a promessa de voltar! 

    Neidinha foi me deixar em Antônio Diogo de moto para voltar à Fortaleza, no caminho, encontramos Cecília descendo do ônibus escolar, dei um último abraço na pequena e seguimos. Conversando, Neidinha me disse que sentia falta de um projeto cultural pela região e pelo que percebi, a região é escassa de arte e cultura. O projeto mais perto que desenvolve algo em relação a arte é em Pindoretama. Dentro de mim nasceu então um desejo de ajudar de alguma forma, mas isso ficará pros próximos capítulos...



Continua...

domingo, 18 de fevereiro de 2018

UMA PRECE

UM POEMA, UMA ORAÇÃO


GRAVURA DE LUHAN DIAS

UMA PRECE

A vida nos faz favores
Que não podemos pagar
E entre rivais e amores
Nós podemos festejar
Nossas enormes vitórias
Contando nossas histórias
No final de nossas vidas
E entre o início e o fim
Deus foi tão bom pra mim
Nas chegadas e partidas.

Tudo quanto adquiri
Observando esse mundo
Foram coisas que vivi
Intenso em cada segundo
E guardei no coração
Levando com emoção
Aos ouvidos dos demais
E vejo que hoje em dia
Toda essa sabedoria
Só me trouxe orgulho e paz.

Que nunca chorou um dia
Por uma decepção?
Ou teve ressentimento
E assim foi pedir perdão
Ao ser que foi magoado?
Que nunca foi enganado
Ou enganou a alguém?
Eu fui, e sei muito bem
Que isso não leva a nada
Pois a pessoa magoada
Sabe o valor que ela tem.

Encontrei nessas andanças
Todo tipo, toda gente, 
Culturas, línguas, maneiras,
Cada qual mais diferente
Uma da outra, é verdade,
Escolhi a qualidade
Das tantas coisas que vi
E confesso que vivi
De tudo um pouco e garanto
Que nunca vi nenhum santo
Nas terras que percorri.

Eu falo dessa maneira
Pois sou observador
E vejo que neste mundo
Tem bastante sofredor
Que nessa vida padece
Diariamente uma prece
Eu faço por esse povo
Andarilhos mendigando
Crianças, fome passando
E nada vejo de novo.

É tão triste ver no mundo
Quem não tem onde morar
O que comer ou vestir
Nem tem água pra tomar
O simples banho do dia
E num ato de agonia
Vive pedindo nas ruas
Essas pessoas merecem
Mais atenção, pois padecem
Muito sujas, quase nuas.

As nossas terras plantadas
O mundo está engolindo
O homem não sabe nada
Todo dia poluindo
O que Deus nos fez de bom
Ouço do mundo seu som
Avisando do perigo
O que o ser humano planta
Colherá, a terra é santa
E o mundo é nosso amigo.

Rogo ao bom Deus que nos olhe
Com carinho e atenção
Pois o mundo sofre tanto
Falo com muita emoção
Peço que estenda o braço
E o nos dê um forte abraço
Pra poder nos consolar
Faço essa prece baixinho:
Nos mostre um bom caminho
Pro sofrimento acabar.

Fortaleza, 23 de Agosto de 2017

domingo, 4 de fevereiro de 2018

ARIEVALDO VIANNA E A ARTE DE FAZER RIR

O BAÚ DA GAIATICE


        Estava em casa procurando em minha mente algum tema para escrever um cordel, quando minha vista, totalmente inconsciente, parou em cima do livro “O BAÚ DA GAIATICE” do poeta Arievaldo Viana, ao qual tenho grande apreço e felicidade em ter em meu círculo de amizade. Peguei o livro e comecei a folear. Já havia passado os olhos outras vezes em alguns “causos” do livro, porém, nunca tinha parado para lê-lo com calma.

Dessa vez parei na página 130, onde o título do texto inicial era “ZÉ RAMALHO E O CORDEL” onde apresentava uma breve biografia do cantor nacionalmente conhecido e reconhecido e falava de sua profunda relação com a literatura popular. A princípio não tive muito interesse em ler tal apresentação, mas a medida que lia cada palavra o interesse crescia.

O segundo parágrafo era composto de palavras do próprio Zé Ramalho falando sobre o cordel “PELEJA DE ZÉ LIMEIRA COM ZÉ RAMALHO DA PARAÍBA” de Arievaldo, enaltecendo seu trabalho com palavras de grande admiração aos versos do poeta. Esse parágrafo me deixou bastante curioso para ter conhecimento do conteúdo poético deste folheto. 

Seguia na página ao lado a capa do folheto em tamanho real e na próxima, os versos contidos nele. O que mais me chamou atenção foi a facilidade de Arievaldo em manipular os diversos estilos de estrofes que temos na literatura de cordel. Uma peleja muito bem escrita perpassando com grande abrangência por estilos considerados dificílimos de escrever. De cada estilo, tirei a estrofe que mais me chamou atenção, me inspirando a escrever minha primeira peleja. Segue então as estrofes:

DAS “SEXTILHAS”:

LIMEIRA:
Eu sei que tu és sabido
Formado em pilogamia
Só canta prosopopéia
Ao pingo do meio dia 
Mas eu vim do “Puigatório”
Escanchado numa gia.

DO “MARTELO AGALOPADO”:

ZÉ RAMALHO:
Zé Limeira teu cantar tem liberdade
Pra dizer o que sente e o que pensa
Já cantei com Geraldo e Alveu Valença
Mas nenhum tem a tua habilidade
Tuas rimas absurdas na verdade
São da fonte a sublime inspiração
Eu tomando uma cachaça com limão
Também faço martelo agalopado
Mas o teu é de aço e foi forjado
Nas crateras vulcânicas de Plutão.

DO “CANTADOR DE VOCÊS”:

ZÉ LIMEIRA:
Este menino atrevido
Só presta levando surra
Sou o Sansão conhecido
Com a queixada da burra
Já matei os filisteus
Ramanos e fariseus 
Ninguém topa o meu revés
É 13 com 12, é 11 com 10
É 9 com 8, é 7 com 6
É 5 com 4, e mais 1
Mais 2 e mais 3
A minha pisada é quente
É um sonhim na corrente
O cantador de vocês.

DO “GABINETE”:

ZÉ RAMALHO:
Vou atender o pedido
Deste ouvinte ilustado
Meu repente é parecido
Com o céu todo estrelado
Zé Limeira do meu lado
É bom cantador também
Eu comprei um cartão
Pra viajar no trem:
Sem cartão ninguém vai
Sem cartão ninguém vem
Nem vem, nem vai,
Nem vai nem Vem,
Eu canto bem por cinquenta
Mas canto melhor por cem.
- Cante o mote do Cadete! 
Quem não canta Gabinete
Não é cantor pra ninguém!

     Finalizando o comentário sobre essa pequena parte da leitura que fiz sobre a obra “O BAÚ DA GAIATICE” de Arievaldo Viana, digo que tem sido um dos melhores livros que andei lendo nos últimos tempos e me vejo bastante inspirado e motivado a continuar escrevendo e cavalgando pelas anedotas do nosso povo, registrando suas falas que, muitas vezes, se perdem como areia no vento. 



Fortaleza, 31 de Janeiro de 2018. 
Rafael Brito

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

AO MEU QUERIDO POETA PATATIVA DO ASSARÉ

XILOGRAVURA DE ARIEVALDO VIANNA

Tenho um imenso amor pela obra de Patativa, li e reli tudo o que podia e continuo lendo sempre que posso. O livro "Cante lá que eu canto cá", já li diversas vezes, e sempre é como se fosse a primeira vez. Em homenagem a esse Mestre, escrevi esses simples versinhos: 

Quem dera ter a metade
Da inspiração soberana
Que te fez cantar as classes
Do palácio à choupana
Meus versos são parecido
Porém ficam esquecidos
Ao ficarem em frente aos seus
Poeta, tu és perfeito,
Cantou o sertão direito
E depois subiu à Deus.

Poeta do meu sertão
Cantador das coisas nobres
Foi o defensor dos pobres
E guardou no coração
Toda a grande emoção
Do nossos sonhos de vida
Meu poeta, tua partida
Nos fez chorar de saudade
E a tua simplicidade
Ficou em nós, repartida.

Quanto mais escrevo versos
Falando do meu sertão
Mais ainda o coração
Me leva aos cantos certos
Mais ainda fico esperto
Com a poesia que faço
E sinto que como um laço
A poesia me encanta
Eu faço parte da planta
Que nasceu nesse pedaço.

Esta planta minha gente
Tem nome de passarinho
Inventou o seu caminho
Com poesia na mente
Trouxe verdadeiramente
Os versos dos céus à terra
Cantou do sertão à serra
E falou de tudo enquanto
Falou do riso e do pranto
Dos sonhos que o pobre enterra.

Teu trabalho me inspira
Meu querido cantador
Muito grande é o amor
Que em meu peito delira
Meu falar não é mentira
Juro na lei soberana
Que meu verso não engana
A ninguém por este mundo
Meu verso é feito segundo
A fonte Patativana.

(RAFAEL BRITO)

Obrigado à todos que leem o que escrevo! 

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