domingo, 14 de janeiro de 2018

O POETA CELEBRA MAIS UM ANO


23 ANOS DE IDADE E DE POESIA



Todo ser entra chorando
Nesse desumano mundo
Mas eu que nasci poeta
Nasci com um dom profundo
Não foi choro, foi lamento,
Sem rima, sem pensamento,
Com um caminho a trilhar
Eu sei que eu já sabia
Ser morada pra poesia
Ser cantiga de ninar.

Naquele primeiro choro
A quatorze de janeiro
O céu encheu-se de estrelas
As nuvens sem paradeiro
Resolveram acompanhar,
Os planetas a se alinhar
Traçavam a minha sina
E o universo inteiro
Me deu um belo roteiro
Com inspiração Divina.

Deus me deu dons e talentos
E me fez desenvolver
Me deu lápis e papel
E me ensinou a escrever
A minha poética lira
É mais rara que safira
Que tesouro, diamantes,
Os versos descem de cima
Cada estrofe, cada rima,
De mundos muito distantes.

Agradeço ao Senhor Deus
Pelos meus dons e talentos
Quero usá-los sabiamente
Para consolar lamentos
Conservar nossas memórias
Espalhar nossas histórias
Pelo seio da nação
Quero ser reconhecido
Como um ser que foi nascido
Pra representar o sertão.

Agradeço aos amigos 
Que me desejam sucesso
Continuarei rimando
E à vocês darei acesso
À tudo o que produzir
Farei sempre alguém sorrir
Com minha estima elevada
Parabéns para o poeta
Deus lhe dê rima completa
Seja sua mente abençoada.

Hoje faço 23 anos, e queria agradecer a cada amigo que me ajudou na batalha até aqui, cada amigo é um tesouro, e prezo muito por cada um de vocês. De todo o Brasil recebo votos de felicidade, força, paz e luz, todos os dias, e vejo que nasci abençoado.

Amo cada um que me deseja sucesso, paz e saúde, amo cada palavra amiga de consolo quando estou triste e cada palavra de força quando estou fraco. Não sou perfeito e estou bem longe de ser, mas enquanto eu for vivo e puder encher o mundo de beleza, é o que vou fazer, nasci pra isso.

Poeta é a eternidade de tudo.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

ÚLTIMOS SILÊNCIOS

A MORTE



Dos milhares mistérios do universo, esse deve ser um dos maiores, se não for o maior. A morte pode ser encarada de várias formas, em algumas tradições é sentida com dor e sofrimento enquanto em outras é motivo de celebração e comemoração.

A dor da partida de um ente querido é algo inexplicável, é uma mistura de angústia e saudade. Mas por que estou falando tudo isso? Porque quero falar sobre a visão do sertão sobre essa que amedronta muitos e alivia outros muitos.

Desde cedo tive que lidar com a morte por perto. Meu avô, minha bisavó, meu tio, minha tia, meu primo, enfim, muitas pessoas de minha vida que se foram, mas um consolo eu tive, e por isso nunca senti tanta dor com a partida, a conformação me foi plantada desde sempre e aprendi que o que nos resta é aceitar.

Essa conformação veio através de minha avó materna. Nos velórios aqui em casa, ela olhava para o ente morto com um olhar sereno e franco, e mexia os lábios devagar, talvez fazendo uma prece a Deus pela alma daquele que se ia. Nunca a vi derramando uma lágrima pela morte, frieza de sentimentos? Tenho certeza que não. Para uma pessoa que perdeu a mãe e o pai no mesmo ano com apenas cinco anos de idade, ela tinha mesmo que ser bem forte.

A força dessa sertaneja, minha avó, é admirável. Eu tenho o sertão dentro de casa e não percebia. O mesmo olhar franco e singelo que vi no Missí, vejo na minha avó. O sertão tem algo especial, o povo é simples e forte.

No Missí, vi um certo temor sobre o assunto. Creem muito em espíritos, são bastante religiosos e supersticiosos. Ao passar numa estrada a caminho da igreja de pedra construída pelos índios, passamos em um local onde a morte marcara seu território. Os ossos de uma vaca se espalhavam pelo chão como muitas estrelas no céu. De longe se via os pontos brancos em meio ao solo barrento, aquilo me chamou muita atenção e quis ir até lá registrar tudo.


Dessa queixada eu trouxe três dentes, para que fosse mais presente em mim tudo aquilo que eu estava vendo. Aqueles ossos, de tão seco, pareciam ser de gesso ou plástico. Para os moradores locais, pegar naqueles ossos atrasava nossa vida, muitos não pegavam por medo mesmo. Diziam que aquela vaca morreu de um mal que não tinha jeito. Nunca soube o que isso significava mas também nunca perguntei, de crenças não se duvida.

Mas não só uma vaca a morte arrebatou, falemos então de gente. A morte é levada com muita naturalidade naquele pequeno pedaço de chão. A perda de alguém querido, claro que causa dor e sofrimento, alguns são mais fortes e superam logo outros sofrem por mais tempo, mas o certo é que no final, a conformação prevalece.

Dizem ser a única certeza da vida. Dizem que é apenas um começo. Dizem que tem mais depois dela, dizem que não se tem nada. A morte já foi motivo de tantos debates, livros, filmes, etc. Mas uma coisa é certa, ela virá sobre todos nós.

O sertão me ensinou a ser paciente, forte e compreensível com ela. Quando perdi meu avô, sabia que tinha que superar, e aquele olhar franco de minha avó, se fez em meu rosto, e mexi os lábios devagar como ela, talvez fazendo uma prece pela alma daquele que se foi.

Eu finalizo esse texto dizendo que o sertão é um lugar de beleza, de liberdade, de riquezas naturais, de humildade e sinceridade. O povo sertanejo é um povo paciente, conformado, feliz (sem precisar de muito pois a felicidade deles se manifesta nas mais pequenas coisas), enfrentam a morte, as vezes vencem, as vezes perdem, e os que vencem, voltam da batalha com um olhar mais penetrante e mais ardente que o próprio sol que lhes castiga dia após dia.



Fico feliz em compartilhar minha viagem com todos vocês e fico mais feliz ainda em saber que trago para vocês tudo o que encontrei dentro de mim. Como disse Guimarães Rosa: O sertão é dentro da gente. 

Finalizo meus escritos agradecendo a todos que tiraram seu precioso tempo para ler meus escritos, e dizer que me alegra a alma saber que vocês entenderam o que falei aqui. 

Muito grato,
Rafael Brito, O Bordador de Histórias.



quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

UM NATAL NO SERTÃO

O VERDADEIRO ESPÍRITO NATALINO


Eu nunca tinha passado um natal no sertão com minhas irmãs. Decidi ir dessa vez, ficar um pouco com minha irmã que acabara de perder um bebê, pensei que minha visita, depois de tanto tempo, alegraria mais o coração dela.

Uma pessoa muito especial em minha vida me incentivou a ir, eu até um dia antes da viagem ainda estava confuso em relação a ir ou não ir. Decidi no dia anterior que iria. E garanto que foi muito valioso ter decidido por ir. Essa pessoa que me aconselhou e incentivou a ir, tem grande parte em tudo o que escrevo aqui, se não fosse sua força e carinho, não teria ido, consequentemente, não estaria escrevendo nada disso, essa pessoa se chama Jéssica Brenda e é um grande tesouro na minha vida.

O dia estava calmo e esperávamos somente a noite para a ceia. O dia custou um pouco a cair cansado mas quando caiu, a noite veio com sua força e brilho. O céu do sertão parece um vestido azulado bordados com fios brilhantes. Um mar imenso a cima das nossas cabeças coberto de imaginação e magia.

Quantos segredos aquele céu carrega, ninguém sabe ao certo, mas sabem que devem olhar pra ele quando as coisas estão difíceis e quando a vida é dura. O povo do sertão tem uma fé do tamanho do céu que os recobre.

Fomos, no quase escuro da noite, em direção a casa da sogra de minha irmã, onde seria a ceia para toda a família. Alguns ficaram tímidos com minha presença e eu com a presença de alguns. Ali se reuniram irmãos, tios, sobrinhos, netos, avós. Uma família grande, típica família sertaneja, e sempre muito unida.

Trocaram risadas, brincadeiras, e por fim, chegou a hora da ceia. Tudo muito simples mas muito gostoso, me deliciei com tudo o que me ofertaram. Mas, antes da ceia, mais uma manifestação de fé do povo, uma roda de mãos dadas diante a mesa, celebrava a vida e tudo o que ela lhes proporcionava. Depois da reza, a mais conhecida, podíamos então comer.

Depois da ceia, muito simples, fomos para fora com cadeiras e sentamos em círculo, nesse momento, toda a sabedoria do povo nordestino foi posta pra fora, desnudos de alma com uma força voraz de contadores de histórias.

Sentei-me em meio a eles, e logo tive oportunidade de falar sobre o que fazia. Quando menos espero, me deparo com a seguinte cena: um jovem de 22 anos, nascido e criado na cidade, sem nunca ter pegado no cabo de uma enxada para capinar um terreno, sem nunca ter que andar léguas para buscar água, contando histórias para aquele povo vivido, sofrido e feliz.

Todos em silêncio, respeitavam e viam que eu era parte daquilo, que longe dali, eu era a voz deles, a representação do sertanejo forte e destemido que luta até com a morte. 

E ali, por horas, contei as histórias que aprendi por ai. Declamei, contei, cantei e pelo olhar brilhante e risonho daquele povo, encantei tudo o que estava ao meu redor como eles também haviam me encantado, ou seja, foi apenas uma retribuição a tudo o que o sertão me ensinou.

A humildade me fez pensar em ser melhor e ser melhor é ser humilde. A emoção toma conta do meu peito ao escrever essas palavras pois naquele momento, cada riso era uma medalha para a minha estrada.



Continua...

O AMBIENTE POÉTICO SERTANEJO

POR TODA PARTE ALGO ME INSPIRA


Para todos os lados que olho a inspiração me cerca. A beleza desse mundo afastado do que conheço me é rara aos olhos. Os meus sentidos parecem serem aguçados com o ambiente diferente e ao mesmo tempo tão familiar.

Quando estou aqui, sinto como se tivesse vivido uma vida inteira nesse meio. Me é tão natural que tenho a ligeira impressão de que tive uma outra vida aqui como sertanejo. Talvez seja isso ou o sangue que corre nas minhas veias que denunciam quem eu realmente sou. Como diz alguns amigos, sou um jovem com alma velha.

Essa alma "velha" deve ter sido a alma de um sertanejo nato e fico muito feliz dessa alma ter encarnado em mim. Vejo as coisas e me admiro, não que seja algo novo, mas como se aquilo que vejo fosse apenas uma lembrança de tudo aquilo que minha alma viveu outrora, e como disse Guimarães Rosa: O que lembro, tenho.

Essas "lembranças" de outrora, me faz ver o sertão com muito mais propriedade e falar dele com muito mais autoridade. Continuando com as palavras de Guimarães: O sertão é dentro da gente.

Todas as vidas que devo ter vivido com toda a certeza do mundo foi no sertão. O prazer é tão imenso de estar de volta. Me sinto em casa.

Escrevo imaginando o que os amigos que leem pensam quando veem tantas verdades particulares em um só texto (ou em dez). Talvez se identifiquem com tudo o que digo, talvez só com uma parte ou talvez não se identifiquem, mas uma coisa é certa, o sertão, falado, cantado ou representado, encanta a quem tiver contato com ele de qualquer forma possível.

Cantado na voz de Luiz Gonzada, descrito nas palavras de Guimarães Rosa, ou de Cecília ou de Raquel, rasgado nas violas dos cantadores, narrados nos folhetos dos cordelistas, exaltado, amado, respeitado, reconhecido. O sertão tem sido inspiração para muitos poetas, cantores, atores, escritores, e como disse o mestre Patativa do Assaré: A tua beleza é tanta / Que o poeta canta, canta / Inda fica o que cantar.

A beleza e a inspiração do sertão é infinita. Enquanto existir sertão, alguém inspirado por ele também existirá.

O sertão é do tamanho do mundo - Guimarães Rosa.




Continua...

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

OS DETALHES

O QUE FAZ A DIFERENÇA


O que faz a diferença são os detalhes, principalmente os que trago pra casa. São eles que ficam incrustados como pedras preciosas nos meus textos e dão beleza e poesia. A poesia são os detalhes das belezas vistas a olho nu mas não percebidas pelo olhar comum.

O olhar do poeta é rico e enriquece o próximo. A beleza se revela no olhar do poeta. Tudo o quanto é belo precisa receber o valor devido. Ainda bem que existem os poetas para valorizar, com seu olhar profundo, a beleza das coisas.

Nessa viagem, a  beleza foi facilmente percebida por mim.  Por todos os lados que olhava, o que via era beleza e poesia. Não conseguia pensar em outra coisa a não ser compartilhar, nem que fosse através de textos e fotos o que via e o que sentia.

No caminho de Amontada para o Missí, eu sentia aquele cheiro de terra molhada e respirava fundo, tentando aproveitar cada partícula de ar que entrava em meus pulmões. Aquele cheiro de infância, me trazia lembranças tão longínquas que por algum momento eu me senti transportado pelo tempo me sentindo de novo menino.

O vento assanhava meu cabelo e eu sentia a liberdade de uma criança batendo em meu peito, me convidando a ser de novo mais humano. Enquanto os meus olhos olhavam ao longe, minha boca soltava um sorriso diferente, cheio de doçura e poesia. 

Era como se nunca tivesse ido naquele lugar, parece que tudo era novo. Talvez por que agora, ia de coração aberto e alma nua. E tudo o que eu queria naquele momento era viver, nada mais do que viver. 

Nem o tempo, nem o mundo, nem as pessoas, nada me cobrava nada, acho que pela primeira vez. Os meus ouvidos, concentrados naquele vento fresco, ouviam somente o silêncio e um grito de paz que me estraçalhava o ser. Eu era somente uma faísca da invenção divina ou talvez um animal selvagem que voltou ao seu estado natural.

Eu espero que consiga transmitir através de palavras o tamanho da emoção que sinto sabendo que faço parte de algo tão belo. Todas as palavras que escrevo vem do mais profundo de minha emoção e de minha sinceridade. Algumas coisas não tenho como descrever, pois são muito complexas para o ser humano, mas o que pude descrever, o fiz.

A casinha de barro, a bicicleta com uma bolsa de palha, o casco da lesma no rio, a areia fria, o cheiro de terra molhada, os galhos secos, os ossos de boi na estrada, a própria estrada, os sorrisos, os abraços, os apertos de mão daquela gente, as histórias, a comida, o gosto da comida, o cheiro da comida, tudo isso são detalhes que ficaram para sempre, impregnados em minha mente e no meu ser.


Cada detalhe que consegui apreender com a minha sensibilidade, eu guardo dentro de mim como uma pedra preciosa, e a junção de tudo, me dá um tesouro de valor inestimável. 

Depois de olhar tanto aqueles detalhes olhei pro céu azul e infinito, respirei fundo, passei a mão na testa, engoli a saliva e descobri que eu era apenas mais um detalhe, como todos os outros, no meio de um imenso rio de fantasia, amor e poesia.

Continua...


domingo, 31 de dezembro de 2017

TODA LIBERDADE DO MUNDO

TUDO É LIBERDADE NAQUELE PEDAÇO



Tudo o que nos rodeia naquele recanto é liberdade. Os animais livremente correm sem medo. O terreno arenoso vai longe, onde o meu olhar alcança é terra sem limite.

Vez por outras, as obras das mãos do homem se confundem, de tão velhas, com as obras da natureza. Ter contato com toda essa liberdade me mostrou que tudo é natural e não preciso me preocupar com muita coisa, o simples já basta, sempre.

São tão doces e dóceis os animais que se aproximam, grandes ou pequenos, carregam no olhar um ar de alegria  e satisfação. O primeiro contato, ainda com receio, mostra a total falta de costume de outras pessoas. Eu era um estranho para toda aquela liberdade.



O olhar é tão doce quanto o olhar das pessoas daquele recanto de paz e harmonia. De manhã correm, brincam, caçam. Essa é sua vida. Sou muito limitado para falar sobre aquela liberdade. 

Já que não posso explicar aquela liberdade, senti-la já basta pra mim. Queria poder transmitir tudo o que senti, mas existem coisas dentro de mim que não conseguem existir nesse mundo nem  se materializar através dos meus textos. Mas espero que as informações que consigo passar aqui sejam suficientes para mostrar tudo o que vi.



A alegria é contagiante, e não tem como não se alegrar vendo esse pequenos correndo pra um lado e pro outro. Eu pensando que era feliz entre carros, motos e prédios, descobri que a felicidade mora nas delicadezas.

Voltei da viagem com toda aquela liberdade dentro de mim e é com ela que escrevo tudo isso.




Continua...


sábado, 30 de dezembro de 2017

O SERTÃO E O SEU POVO

A SIMPLICIDADE DO POVO ME COMOVE



Sinto dentro da alma que tenho uma grandiosa responsabilidade com esse povo. Como poeta popular, escrevo e falo da vida deles como se fosse a minha própria. Sou embaixador desse povo, e me orgulho disso.

Todas as histórias, todos os ditados, todos os costumes, as diferenças, tudo isso se torna combustível para os meus versos e me sinto feliz em saber que eles, aprovam. 

Ao contrário de Patativa quando dizia: "Sou um poeta do mato / vivo afastado dos meios / a minha rude lira canta / casos bonitos e feios / eu canto os meus sentimentos / e os sentimentos alheios", eu digo: "Sou um poeta moderno / nasci na grande cidade / os meus versinhos só falam / sobre a minha mocidade / pois não falo mais que isso / devido a minha idade".

O rosto queimado de sol e as mãos calejadas da labuta diária, são as marcas que o tempo lhes ofertou, fora aquilo, tudo é luxo. A dicção quase incompreensível mostrava a simplicidade, e os sorrisos em cada final de frase, me mostrava a grandeza do ser humano composta de amor e timidez.

Os olhares, de tão doces, chegam a arder em minha pele, e a hospitalidade me faz inveja. Eles vivem com o necessário mas o necessário é o que lhes basta. Não há vaidade em nada que sai deles. 

Eu, sentado, olhando fixamente a boca do velho contando histórias, me lembrava de tudo o que faço em teatros, eventos e shows. Mas eu vejo que não sou metade daquele velho por que eu nunca vivi o que ele dizia.


Sinto-me demasiadamente feliz por saber que mesmo não tendo vivido metade do que eles falavam, eles aprovavam a minha representação e receberam com orgulho o meu trabalho, mas o que mais me comoveu depois de ter terminado de declamar uma poesia, um deles olhar pra mim e dizer: Esse é poeta mesmo!

Senti meu coração pular de alegria pelo reconhecimento daquele povo com um menino da cidade que declama coisas que ouve por ai. Me senti ali um legítimo representante da cultura popular nordestina. 

Aquela frase me coroou poeta!



Continua...

AS CURVAS DO RIO

O RIO ARACATIAÇU



A vida da gente é cheia de altos e baixos. É como um rio que bate nas pedras, faz curvas, passa por muitos ambientes ao longo de ser corpo, mas nunca deixa de seguir seu curso. Por alguns momentos, devido a sujeira, poluição, esse rio atrasa sua caminhada, fica doente, mas se limpo, seu caminho é seguido livremente.

Quantas coisas bonitas pode guardar um rio seco? Eu descobri muitas dessas belezas visitando o Rio Aracatiaçu, que fica a alguns metros da igreja de pedra construída pelos índios a 260 anos atrás. 

O rio cheio, esconde mistérios que só ele sabe, mas quando seca, expõe ao mundo muitas coisas que guardava com carinho e paciência. O rio amadurece suas beleza na cheia para nos mostrar na seca. E quem disse que o rio seco não tem beleza? 

Caminhando em direção ao rio, muitas carnaubeiras nos saudavam com suas sombras e o chão de terra nos guiava nos abrindo um mundo novo. o caminho vai estreito até o leito do rio e de repente, abre-se um descampado sem tamanho e a visão muda totalmente, e a gente sente como se estivéssemos dentro de uma bacia que a natureza criou com delicadeza.


Estávamos no meio do rio que agora era apenas uma areia grossa e cheia de brilho por causa do sol. A mata vestia as suas laterais sem fim. E pra onde se olhava, o que se via era areia.

Senti dentro de mim uma correnteza de emoção e vi que aquele rio ainda vivia. O solo, ainda fresco, guardava água no profundo. Algumas cacimbas mostravam que ainda tinha vida naquele recanto. 

Caminhamos mais um pouco e sentamos na areia, naquele dia, havia chovido mais cedo e a areia estava gelada. A paz de estar em meio aquela natureza é indescritível.


Aquele rio, que provava que ainda vivia mesmo seco, me trouxe esperança e paz e disse ao meu coração que mesmo em tempos difíceis, podemos sim viver em harmonia e transmitir um pouco de paz e amor ao coração alheio.

Se eu estava feliz, senti que o rio estava muito mais e, depois de me presentear com um dos seus tesouros, me deu tchau e me fez prometer que voltaria. 

Continua...

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

UM PATRIMÔNIO CULTURAL PERDIDO


A IGREJA DE PEDRA


Conversando com uma moradora local (minha irmã), um comentário me chamou atenção. Ela falou sobre uma igreja que havia sido construída por índios a 260 anos, e que agora não passavam de ruínas. Me informou também que a última reunião religiosa que acontecera no local foi em 1945. Como ela sabia de todas essas informações? Uma missa havia sido celebrada a pouco tempo no local e uma placa com informações lhe foi atribuída. 

Pedi que ela me levasse até o local e, ao chegar, maravilhei-me logo de cara com tamanha beleza. Eram apenas ruínas, mas eu olhava e via muito mais que isso. Algumas paredes, embora velhas, ainda resistiam ao tempo como um doente que pede ajuda a quem passa. As paredes, de pedras, largas, mostravam as forças do tempo e da natureza que ainda podiam lutar, pois sendo elas, de pedras, faziam parte da natureza.

Fiquei imaginando quanto trabalho tiveram os indígenas que a construíram, e a construíram com uma grande habilidade de trabalho. Pensei também quanto tempo levaram para erguer aquelas paredes que mais pareciam montanhas. O que me chamou muito atenção foi o esmero com que a fizeram: as pedras escolhidas, talhadas, o reboco de barro, impressionante!



Apesar de serem apenas ruínas, forças desconhecidas, boas, podem ser sentidas naquele ambiente. Um templo perdido e esquecido em meio ao mato. Cada pedra daquelas paredes, parecem ter sido benzido com o suor de quem as carregou e, segundo minha irmã, ali foram enterradas muitas pessoas, desde crianças até velhos. 

A alguns metros dali, há um grande rio seco, que em bons invernos enche muito e tem muita força as suas águas, e acredita-se que foi isso que transformou o trabalho dos índios em tantas pedras reviradas.

Andando, realmente se viam alguns ossos ainda meio recobertos pela areia. Talvez pela "descoberta" recente, muitos curiosos foram até lá ver de perto aquela obra de arte, e assim, pisando o terreno arenoso, descobriram também os ossos.

O nome da tribo que a construiu, ninguém soube informar, mas disseram que foi a primeira igreja a ser levantada em homenagem a Nossa Senhora da Conceição, como consta na placa que lhe atribuíram e os devotos da mesma afirmam. 

Existe uma lenda de que a imagem dessa santa foi levada de outra igreja próxima a essa, para outra localidade e no outro dia, ao amanhecer, a mesma estava de volta ao seu local de origem, e isso aconteceu várias vezes. Conversa do povo? Não! Crença!

Não posso duvidar de nada, nem estou aqui pra isso, o que eu faço não tem nada a ver com as crenças daquele povo que, afirmo, as acho muito interessante.

Voltei muito pensativo e lembrando de tudo que vira. E o meu coração guardava tudo aquilo muito melhor que a minha câmera. A minha alma, apossou-se daquelas crenças e sei que uma vez que se acredita, é difícil não crer mais.


PELA MANHÃ, OS PASSARINHOS


PELA MANHÃ, OS PASSARINHOS




Pela manhã, os passarinhos cantavam celebrando a liberdade, e os raios do sol, passavam pelas frechas do telhado e me banhava o rosto. Já ouvia alguém na cozinha a conversar baixinho temendo acordar o visitante. O cheiro de café moído na hora tomava toda a casa que, ainda de janelas e portas fechadas, se tornara um enorme balaio de lembranças e sorrisos.

Levantei, e fui em direção a cozinha, aonde já me aguardavam para tomar aquele legítimo café, que era o único que eles conheciam e, no momento, eu também.

Com a xícara na mão, olhei pela porta dupla que haviam acabado de abrir (a parte de cima) e o céu era o mais bonito. As nuvens que eu conhecia, não formavam tantos desenhos como aqui formam, e os passarinhos, aqueles passarinhos, com toda certeza, nunca souberam o que é uma gaiola. 

Registrei em fotos, os primeiros movimentos rupestres que eu levaria pra casa, como os primeiros ruídos que ouvira outrora. E mostrei-os com tamanha admiração e brilho nos olhos que eles, acostumados a viver em meio a tanta beleza, com a maior naturalidade me perguntaram que graça eu via em tantas coisas que era comum pra eles. 




Aquele ambiente era, sem sombra de dúvidas, gasolina para os meus devaneios poéticos-literários. Para eles, apenas gravetos expostos ao sol em meio ao terreiro, para mim, um mundo novo.

O olhar do poeta, fincado naquela forma bruta de vida, se espalhava pelo horizonte e mostrava à minha alma a beleza de cada pedra, cada galho seco, cada animal que corria livremente mundo a fora e depois voltava por extinto talvez ou simplesmente por que sabiam que tudo aquilo era deles e não tinham donos, apenas companheiros que dividiam aquele taco de chão.

O sol, que dominava tudo naquele recanto, de repente perdeu sua força e, forçado a se esconder, desapareceu em meio a densa nuvem que vinha trazida por um forte vento que varreu o descampado em frente a casa. A nuvem escura, rapidamente tomou conta do mundo deles, e a chuva veio.

A chuva lavou o chão seco e encharcou minha alma de poesia.



Continua...

PRIMEIROS RUÍDOS

PRIMEIROS RUÍDOS



Eu, ainda em casa, não conseguia imaginar a explosão de delicadezas que iria receber nessa viagem. Pensei que seria como as outras vezes que fui até lá, visitar pessoas que amo. Dessa vez, a natureza combinou com a vida de me fazerem surpresa.

Ia conversando com uma amiga por mensagens, falando da ansiedade de tão somente encontrar pessoas queridas e da saudade que sentia de ir lá. Em todos os passos essa amiga me acompanhou. 

Dormi um pouco na viagem, pois na noite anterior não havia dormido, talvez por ansiedade, talvez por insônia. A viagem foi tranquila e rápida.

Chegando em Amontada, já conseguia sentir o clima interiorano batendo no meu peito e dizendo: Que satisfação ter você aqui de novo. Isso me alegrou. Peguei um moto táxi e segui, rumo à Missí, localidade da cidade de Miraíma. 

A moto ia devagar, por causa dos buracos da estrada, e eu podia sentir, de longe, o cheiro de terra molhada e ar fresco batendo no meu rosto como se me cumprimentasse e me dissessem que eu demorei a voltar lá. Saímos da estrada e entramos cancela a dentro.

Por toda parte eu via e sentia o sertão falar comigo. A babugem já começava a cobrir o chão e os animais já suspiravam aliviado por finalmente o inverno chegar depois de sete anos de seca. E todos falavam numa boca só que "para o ano" o inverno seria grande.

Desci da moto e recebi abraços, aqueles abraços que a gente torce para não acabar. Senti que estava onde deveria estar. O tempo estava frio e era quase noite, estava cansado da viagem mas com um sorriso de satisfação no rosto. A casinha alpendrada sugeria conversas e lembranças. E tudo aquilo me encantava como se fosse a primeira vez que eu estava ali.

Logo jantamos, conversamos mais e o frio da noite nos brindou com uma madrugada sossegada e silenciosa. Esses foram os primeiros ruídos da minha andança pelas terras daquele povo.

Continua...

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